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segunda-feira, 22 de junho de 2020

A vida e o legado de Luiz Gama, herói da liberdade

Luiz Gama (c. 1860)



Por Irapuã Santana 
Publicado no caderno Estado da Arte - Jornal Estadão (21 de junho de 2020)

“Eu disse, uma vez, que a escravidão nacional nunca havia produzido um Terêncio, um Epitecto, ou sequer, um Spártaco. Há, agora, uma exceção a fazer: a escravidão, entre nós, produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epitecto e de Spártaco”. [1]
Sílvio Romero

Uma criança negra livre é vendida para quitar uma dívida de jogo de seu pai, consegue a alforria, estuda Direito e consegue libertar mais de quinhentas pessoas escravizadas.

É roteiro de filme hollywoodiano, mas sua origem é real e bem brasileira. Ela começa em Salvador, Bahia, em 21 de junho de 1830, quando nasceu Luiz Gonzaga Pinto da Gama.

Jornalista, poeta, advogado e um ativista incansável na luta contra o regime escravocrata, Luiz Gama deveria estar entre as figuras mais conhecidas da história brasileira, como um dos maiores, senão o maior, símbolo dessa época. No entanto, apesar de um grande potencial de transmissão de sua mensagem à frente, diante da quantidade de documentos históricos à nossa disposição, bem como por se tratar de um passado relativamente recente, pouca gente conhece a história desse verdadeiro herói.

Assim, estas poucas linhas são uma singela tentativa de fazer justiça à memória desse grande personagem brasileiro.

Filho de Luiza Mahin, uma negra africana livre, com um fidalgo de origem portuguesa de uma das principais famílias baianas, cujo nome se desconhece, Luiz Gama, com apenas dez anos de idade foi vendido como escravo por seu pai.

Ao desembarcar no porto de Santos, subiu a serra – descalço e faminto – até Campinas. Para se ter uma ideia, o Google Maps, hoje em dia, coloca a distância entre as duas cidades como equivalente a 175 km, com, no mínimo, 37h de caminhada. Imagine isso em 1840, em condições precárias, no meio da mata fechada, para uma criança de apenas dez anos de idade.

Com dezessete anos, Gama conheceu um jovem rapaz que lhe ensinou a ler e escrever, bem como matemática e alguns conhecimentos humanistas. Aos dezoito, começou a reunir provas de que sua situação de escravizado era completamente ilegal, tendo ciência de que seu pai e sua mãe gozavam de ampla liberdade.

Pediu que seu então senhor lhe desse a alforria. Sem sucesso.

Luiz Gama, então, fugiu para São Paulo, na posse das provas de que nascera livre, quando passou a servir às forças armadas até 1854. Em 1856, foi nomeado escrevente da Secretaria de Polícia, onde se aproximou de José Bonifácio e iniciou seus estudos de Direito por sua própria conta.

A literatura serviu para Luiz Gama como passaporte para os círculos sociais mais altos, tendo como sua obra mais proeminente de poesia “As Primeiras Trovas Burlescas”, de 1859.



A poesia Quem Sou Eu?, popularmente chamada de Bodarrada, talvez seja uma das mais conhecidas das Primeiras trovas burlescas. Nela, Gama traça um autorretrato:

“Faço versos, não vate, digo muito disparate. Mas só rendo obediência à virtude, à inteligência: eis aqui o Getulino…”.

O nome “Bodarrada” vem da palavra “bode”, que, na gíria da época significa mulato, negro. Assim, Luiz Gama indagava:

“Se negro sou, ou sou bode, pouco importa. O que isto pode?”

E terminava sua poesia dizendo:

“Haja paz, haja alegria, folgue e brinque a bodaria. Cesse, pois, a matinada, porque tudo é Bodarrada!”. [2]


Em 1868, Gama foi expulso da polícia por ser considerado baderneiro, por conta de sua atuação junto ao Partido Liberal à época. Foi nesse ínterim que se consolidou a figura do ativista liberal abolicionista. Enquanto se preparava juridicamente sozinho, por ter sido rejeitado pelos colegas e professores de faculdade, escrevia para inúmeros jornais: O Diabo Coxo, O Cabrião, O Polichinelo, O Coaraci e, mais tarde, O Radical Paulistano, entre outros. Sob pseudônimos, tecia grandes críticas à sociedade escravagista e à política do regime monárquico.

Diabo Coxo (dez/1864), fundado por Gama e Angelo Agostini.


Dez anos depois da primeira edição das Primeiras trovas burlescas, o jornalista liberal tinha a audácia de jogar os refletores, de condenar a incompetência, a ignorância e a corrupção dos juízes da província, insolência que lhe valeu tanto perseguições políticas quanto notoriedade. Quer pelo humor, quer pela seriedade, as palavras de Luiz Gama deviam ter um peso insuportável para os doutores, alvos prediletos do julgamento por parte do insolente ex-escravo, ex-analfabeto e autodidata sem diploma, o que lhe conferia uma certa superioridade e, por que não dizer, uma indisfarçada autoestima.”[3]

Embora mereçam nota, o servidor público, o poeta e o jornalista formam apenas uma introdução do legado de Luiz Gama, enquanto advogado – apesar de apenas ter sido reconhecido como tal pela OAB somente cento e trinta e três anos após sua morte. Até então, atuava como rábula.

Luiz Gama utilizava toda sua formação moral e jurídica como instrumento de luta nos tribunais, na imprensa, nos parlatórios e onde mais sua voz pudesse ecoar pela vinda da sonhada liberdade a todos os escravizados.

A Lei Feijó, de 1831, foi muito invocada por nosso herói. Ela é conhecida por ser uma das grandes responsáveis pelo surgimento da expressão “pra inglês ver”. Ela declarava “livres todos os escravos vindos de fôra do Imperio” e impunha “penas aos importadores dos mesmos escravos”. No entanto, como não havia intenção de materialização desse objetivo, o tráfico negreiro continuou sem qualquer restrição.

Mas Luiz Gama, munido de provas de que a pessoa havia aportado no país após essa data, vinda da África, conseguia nos tribunais sua alforria, em vitórias magníficas. Uma das histórias mais contundentes e elucidativas de como atuava em seu cotidiano é a que segue:

………..

Entrou-lhe um dia, pelo escritório adentro, um negro que desejava libertar-se e que ia entregar-lhe o montante do pecúlio necessário para que Gama tratasse de alforriá-lo. Enquanto o preto expunha o seu caso, aparece o senhor, que por sinal era amigo do advogado. Estava visivelmente inquieto, triste, abatido. E entrando em explicações, pergunta ao negro por que pretende abandoná-lo, a ele que sempre lhe dera trato e carinho iguais aos de seus filhos.

– Por que queres deixar-me, abandonando o cativeiro de um homem bom como tenho sido, arriscando-te a seres infeliz quando estiveres sozinho pela vida?

O escravo não respondia. Não tinha o que reclamar, pois o amo fora sempre, mais que humano, solícito e bondoso. O senhor não se conformava com a atitude do escravo:

– Por que me abandonas? Que é que te falta lá em casa? Dize… fala…

– Falta-lhe – interveio Luiz Gama, dando uma palmada no ombro do preto – falta-lhe o direito de ser infeliz onde, quando e como queira!

E libertou o negro.[4]

…………………

Nosso personagem histórico variava seus argumentos das mais diversas formas possíveis para defender seus clientes. Uma fala que entrou para a eternidade e levou o real significado da liberdade para Luiz Gama ocorreu quando defendia um negro escravizado que havia matado seu senhor: Todo escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata em legítima defesa.[5]

Foi com essas atuações que o ex-escravo conseguiu libertar mais de quinhentas pessoas escravizadas durante sua vida.

……………..

Em 24 de agosto de 1882, morre Luiz Gama. Conta-se que 10% da população de São Paulo esteve presente no seu velório e enterro. Infelizmente, apesar de seus grandes feitos, muito pouca informação sobre Luiz Gama é disseminada no Brasil.

Inscrito no livro dos heróis nacionais em 16 de janeiro de 2018, e apesar de ter sido nomeado o patrono da abolição da escravatura no Brasil na mesma data, não vemos uma minissérie, um filme, dificilmente uma peça em seu nome com sua vida.

Os livros de história nos colégios tratam o dia de hoje como uma data em que pessoas brancas concederam a liberdade a pessoas negras e apagam o fato de que personagens heroicos lutaram com suas vidas para que a sonhada liberdade chegasse a todos.

Em nossas mãos está a obra de Luiz Gama, uma pessoa que fez da sua vida um ensinamento, que dedicou a sua vida à causa abolicionista.

Nós temos o potencial de ser o seu legado, levando sua palavra adiante, não o deixando cair no esquecimento, em sua vivência e em sua mais forte essência. Temos o potencial de fazer isso ressignificando o 13 de maio, que deve ser entendido como uma data de lembranças das narrativas corretas, dos contos de quem passou por todas as etapas da vida se dedicando à liberdade e à igualdade de fato.

Um novo 13 de maio deve ser fundado no país, tendo como base a obra e o legado de Luiz Gonzaga Pinto da Gama.

domingo, 21 de junho de 2020

História: Búzios nos mapas




Búzios, 1839 (Arquivo nacional)



Búzios, 1939 (Arquivo nacional)



Búzios, 1940 (Arquivo nacional)



Búzios, 1949 (Arquivo nacional)


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Os Militares da Democracia: os militares que disseram Não




Excelente documentário dirigido pelo documentarista e historiador Silvio Tendler. O filme faz parte do Projeto "Marcas da Memória" da Comissão de Anistia.

Sinospse:

Eles lutaram pela Constituição, pela legalidade e contra o golpe de 1964, mas a sociedade brasileira pouco ou nada sabe a respeito dos oficiais que, até hoje, ainda buscam justiça e reconhecimento na história do país. Militares da Democracia resgata, através de depoimentos e registros de arquivos, as memórias repudiadas, sufocadas e despercebidas dos militares perseguidos, cassados, torturados e mortos, por defenderem a ordem constitucional e uma sociedade livre e democrática.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Otavinho: “Nosso vereador custa 600m2 de paralelo por ano”


Por Alan Camara

Este artigo, o primeiro de uma série que será publicado neste blog, tem o objetivo de avaliar numa perspectiva histórica e comparativa, os acontecimentos políticos e culturais dos últimos 23 anos de Búzios como município. A intenção é utilizar fontes, como jornais, fotografias, documentos oficiais, personagens, eventos, entre outros, observando as mudanças culturais e políticas que aconteceram durante este período e compará-las com o cenário atual. Este artigo, por exemplo, utiliza como fonte, uma entrevista publicada no Jornal O Perú Molhado feita com o arquiteto Octávio Raja Gabaglia, em junho de 1996, alguns meses após a emancipação de Búzios.
Às vésperas das eleições de outubro de 1996, Búzios se preparava para eleger seu primeiro prefeito e sua primeira câmara de vereadores. A cidade ainda respirava os ares de sua independência político-administrativa de Cabo Frio — em 12 de novembro de 1995 – e vivia, o que se pode chamar “os anos dourados” da história de Búzios. Havia no imaginário coletivo do buziano a idealização de uma cidade próspera, que finalmente seria capaz de decidir sobre seus rumos sem a interferência dos políticos cabo-frienses.
Alguns nomes começavam a surgir como expoentes da nova política buziana, ora porque participaram do processo emancipatório, ora porque já se destacavam como políticos tradicionais. Um deles, Octávio Raja Gabaglia, conhecido popularmente como Otavinho, uma das figuras mais importantes da política local naquele período.  Otavinho foi eleito representante de Búzios como vereador em Cabo Frio (1983-1988) e por ter exercido seu mandato nos anos que eclodiram os movimentos emancipacionistas, figurou como personagem importante dentro do processo. Otavinho era vereador quando foi entregue à Câmara de vereadores de Cabo Frio, em 1985, o “Manifesto dos Oito”, documento redigido por um grupo de entusiastas emancipacionistas, considerado um dos primeiros passos que levaria à emancipação. Otavinho foi eleito como vereador nas eleições de 3 de outubro de 1996 e teve seu mandato cassado por dupla filiação partidária, assunto que será mais detalhado em outra oportunidade.
Otavinho era figura recorrente na imprensa buziana, especialmente no Jornal O Perú Molhado, que lhe dedicava periodicamente páginas para entrevistas ou opiniões, nas quais tinha por hábito analisar incisivamente as personagens e os cenários da política, naquele período, ainda em estágio embrionário de formação. Por ter sido figura importante no processo urbanístico da cidade — sua formação é arquitetura —, numa conjuntura na qual a simplicidade intelectual era predominante e, consequentemente, até certo ponto, ausente de outras vozes que pudessem refutar suas ideias e conceitos, Otavinho construiu durante os anos o status de principal formador de opinião para assuntos da política e da cidade. 
Suas críticas, ilustradas por metáforas de cunho urbanísticas, direcionadas aos pretendentes a cargos públicos, mais especificamente aos candidatos a vereadores que proliferavam por todos os lados, ainda estão completamente atualizadas, não por clarividência, mas pelo cenário político buziano não ter sido alterado em nada nesses 23 anos de emancipação. Nas palavras de Otavinho: “Nós temos candidatos, candidatos a candidatos, mas ninguém diz ao que veio.” 

“Nós contra eles”
É interessante observar nos jornais do período as dúvidas e os anseios do cidadão buziano em relação aos rumos que o novo município parecia tomar. A emancipação político-administrativa se deu como resultado da união de todas as camadas da sociedade e juntou classes sociais diferentes num mesmo objetivo. 
Após a vitória do “SIM”, em 12 de novembro de 1995, essas classes retornaram às suas posições originais e cada uma tratou de projetar seus interesses no novo município. Foi nesse contexto que o sentimento do “nós contra eles” começou a ser percebido, inicialmente no campo político-partidário, depois, nas relações sociais entre os “nativos e forasteiros”, que enxergavam horizontes diferentes para Búzios.  
Em 1996, o buziano ainda caminhava na lama e caia nos buracos. A cidade não tinha 20% de sua malha viária pavimentada e esta era uma das principais urgências para que o município pudesse dar seus primeiros passos em solo seco. Isso pode ser observado na entrevista em que Otavinho usa de suas metáforas para comparar o custo do vereador e do paralelepípedo: “Você sabe quanto custa um vereador para Búzios, só em custo direto? Só estou falando do salário que ele recebe, nada de telefone, assessor? 54 metros de rua calçada, com 5 metros e meio de largura, em paralelepípedo, por mês. Então, 600 m2 de paralelo por ano.” 
Em 2019 um vereador buziano custa aos cofres públicos 7.429,95 reais mensais, sem contar assessores, celulares e penduricalhos que recebe. Por ano, o custo de um vereador em Búzios chega a 96.589,35 reais. O preço do metro quadrado de paralelepípedo, segundo tabela 2019 da EMOP (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro) é de 80 reais. Seguindo o raciocínio de Otavinho, somente o salário anual de um vereador de Búzios em 2019 permitiria ao município pavimentar 1.200m2 de paralelepípedo: uma rua!
A câmara de vereadores de Búzios não representa o cidadão
Atualmente pavimentação deixou de ser uma necessidade urgente. Apesar de não ter a malha viária pavimentada em sua totalidade, vias importantes já foram contempladas. Porém, novos obstáculos surgiram, especialmente no que diz respeito à probidade com a coisa pública, e fizeram aumentar antigos problemas, especialmente na educação e na saúde. Nesse ponto, o papel do vereador como fiscalizador dos atos do Executivo é de fundamental importância.   
Nos 23 anos de emancipação, com excessão de alguns lampejos, a atuação dos vereadores não desmentiu as palavras de Otavinho. A câmara de vereadores de Búzios sempre atuou no “limite seco” no que diz respeito ao padrão de atuação institucional esperado, ou seja, muito abaixo do nível de satisfação no qual o cidadão se sente representado. 
Numa análise simples, o Legislativo buziano é uma instituição que se omite de sua principal função: fiscalizar; corrigir as ações do Executivo, quando essas se desviam de seu curso correto e lícito. Por exemplo, ao contrário do que se pensa, é graças à atuação efetiva da Câmara que processos traumáticos, como impeachment, podem ser evitados. Quando há independência do Legislativo, e isso se traduz em fiscalização do Executivo, o cidadão é posto na posição central dessa relação.

  

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O ouro das Minas Gerais deu em uma armação



Clique na imagem para ampliar. Autor: Alan Camara
Por Alan Câmara


Na primeira metade do século XIX, oito anos após a vinda da família real, em 1808, chegava ao Brasil, a convite do Rei dom João VI, a missão artística francesa com a finalidade de trazer “cultura” e arte europeia para estes lados dos trópicos. Desta missão, faziam parte os artistas Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, entre outros artistas escultores e arquitetos.

Destes artistas, certamente o mais conhecido é o pintor Jean-Baptiste Debret, que nos deixou um legado muito mais que artístico, mas principalmente histórico e sociológico, ao mostrar, com olhar sensível, a sociedade brasileira daquele período. Anos mais tarde, outros artistas viriam ao Brasil, como o tipógrafo e pintor Hercule Florence, em 1824, autor do mais antigo registro fotográfico das Américas; Johann Moritz Rugendas, em 1834 – ambos participantes da expedição Langsdorf - que registram muitas cenas do cotidiano brasileiro, entre outros; cada um com seu estilo e características peculiares.

Búzios não teve a sorte de ser retratada por um destes artistas da missão francesa ou mesmo da expedição Langsdorff, que durou até 1829. Naquele período, a armação baleeira de Búzios, uma das principais da capitania do Rio de Janeiro, no Brasil Colônia, fora abandonada, anos atrás, em 1768: segundo o historiador Marcio Werneck, em razão das más condições do mar de Búzios, que dificultava a atividade baleeira, e do declínio da modalidade terrestre de caça às baleias.

A história de Búzios deste período é fascinante, algumas encontradas em documentos oficiais, outras, extraídas de relatos orais, mas nenhuma - pelo menos que se tem conhecimento - registrada em imagem de pintura ou em processo fotográfico. Com exceção de uma citação referente à “Ponta dos Búzios”, num dos mapas incluídos no “Roteiro de todos os sinais na costa do Brasil” (anônimo, 1583)[1]

O ouro das Minas Gerais deu em uma armação

O óleo de baleia utilizado na colônia e exportado para metrópole (Portugal), tinha diversas finalidades: era utilizado na impermeabilização de navios e barcos, na confecção de argamassa usada em construções e, especialmente na iluminação. É importante destacar que não havia outras técnicas de iluminação neste período, e mesmo sendo mal cheiroso, e produzindo uma iluminação tênue e até certo ponto melancólica, o óleo de baleia era importante para manter as ruas da colônia iluminadas.

No início do século XVIII, a pesca da baleia no Rio de Janeiro foi afetada pelo aumento da produção de ouro das Minas Gerais. O fluxo de navios que transportavam ouro reduziu significativamente a quantidade de baleias, especialmente na Baía da Guanabara, consequentemente afetando a captura e a produção. De acordo com a historiadora Myriam Ellis, a preocupação com os efeitos da queda da produção baleeira, que afetaria a exportação e comércio, e a demanda por iluminação pública da colônia, fez com que a capitania descentralizasse a captura de baleia e deslocasse a produção para outras regiões do litoral fluminense, entre elas, Búzios.[2]

Segundo Werneck, a armação de baleias de Búzios operou ativamente por 40 anos (1728-1768). Neste período, no auge de sua produção, era de fundamental importância econômica, sendo uma das três principais armações da Capitania. Para Werneck, os efeitos da produção acima das expectativas nos primeiros 10 anos de operação, estimularam o novo contratador Brás de Pina, a ampliar e fundar, em 1740, a Capela de Sant’Anna.
           
A armação era um complexo de produção de derivados da baleia, que pode ser compreendido desde a pesca do animal até o processamento do óleo. Sua instalação, feita com mão de obra escrava, era constituída de um engenho de frigir, reservatórios de óleo, armazéns, oficinas, cais, rampas, paredões, alojamentos e senzalas. As outras construções do empreendimento eram a “casa da vivenda” onde residia o administrador; a moradia dos feitores e a casa do capelão.

Clique na imagem para ampliar


Pintar a história de Búzios

Esta história é linda e cruel. Para a nossa concepção atual no que diz respeito ao meio ambiente, a pesca da baleia era uma atrocidade e uma banho de sangue. A técnica, trazida ao Brasil pelos biscainhos no século XVII, era, primeiramente, caçar o baleote (filhote da baleia) e deixa-lo agonizando, amarrado às baleeiras. Segundo relatos, o filhote gemia como um porco e fazia com que a mãe viesse ao seu encontro. Ao aproximar a mãe, o arpoador lançava sobre o animal e o deixava sangrar até a morte, que se dava de maneira dramática, após o último esguicho de sangue.

O lado belo, é que as baleias migram para o norte do Brasil nos meses de junho e julho em busca de águas mornas para procriarem. No período da migração, quando iniciava a temporada das baleias, a enseada da praia da armação ficava repleta desses animais. A data 26 de julho, quando se comemora o dia da padroeira Sant’Anna, remete ao período da caça da baleia. Segundo o historiador Marcio Werneck, nesta data era rezada a missa solene na capela de sant’Anna (única feitoria que restou da armação baleeira) com votos para uma boa safra. Durante a missa o padre abençoava os arpões, lanchas e baleeiras e “ (...) ao surgir o esguicho característico da baleia, o padre era avisado e tangia o sino da torre, os tambores rufavam e baleeiros partiam rápidos nas suas lanchas (a vela e a remo) para caçar a cobiçada presa.” Werneck.

Búzios é um dos locais mais fotografados, podemos ver suas belas imagens por toda parte. Com o uso das redes sociais, visualizamos diariamente, dezenas de novas fotografias de Búzios. Há também vários artistas talentosos que passaram ou estão por aqui, que produziram inúmeras pinturas que retratam suas praias, pessoas e lugares. Enfim, Búzios atual está mais do que registrada em imagens.

O desafio de pintar o passado é não cair na armadilha da idealização e do anacronismo. Todo artista é idealista por natureza, e quer de alguma maneira, mudar ou recriar o mundo ao seu redor. Então, como pintor, me vejo diante do desafio duplo de fugir do idealismo e do anacronismo. Se Rugendas, “pintor cronista” que retratou o Brasil no século XIX, foi criticado, na época, por idealizar seus desenhos, imagine o artista que se propõe a pintar algo que não viveu.

Neste esboço de aquarela, ainda idealizado, está retratada a “fábrica” instalada na Praia da Armação. No alto, de frente para “Praia dos Maribondos” atual praia dos Ossos, é possível ver a jovem Igreja de Sant’Anna, construída em 1740 pelo contratador português Brás de Pina. A construção da Capela feita com argamassa, que tinha em sua composição o precioso óleo do cetáceo, eterniza o período da pesca da baleia em Búzios e lhe confere múltiplas representações.

Os escravos, como mostra a pintura, transportavam os barris nas costas, da praia até o engenho/armazém, a gordura da pele do cetáceo. Uma baleia, após o beneficiamento do óleo, conforme as suas dimensões, produzia de dez a trinta pipas de óleo, o que equivale a média de vinte pipas por animal capturado; a pipa comum correspondia a aproximadamente 424 litros de óleo. Segundo Werneck, após transportarem até à fábrica, derretida a gordura e apurado o óleo, canalizava-se o produto até os reservatórios de pedra na “casa dos tanques”; e, finalmente, transportava-se o esqueleto para ser enterrado na praia vizinha que, por essa razão, passou a ser chamada “dos Ossos”.*

Na pintura procurei descrever a cena e o contexto: o feitor, sempre armado; os escravos, que trabalhavam durante um dia inteiro debaixo de sol quente; as baleias mortas que deixavam seu sangue em toda extensão da praia; os casebres que ficavam no entorno da armação e a bucólica capela de Sant’Anna, imponente e bela.

Na outra cena, é retratada a chegada da imagem de Sant’Anna, transportada por escravos e levada em procissão até à capela, onde está há pelo menos 278 anos. Esta cena, provavelmente mais idealizada que a outra - que será corrigida na pintura final - figura, ao lado da instalação da armação baleeira e a formação do quilombo da Rasa - que será pintado posteriormente - como registro de nascimento de Búzios como povo.

*Há uma controvérsia em relação ao topônimo “Praia dos Ossos”. Para o historiador Antonio Câmara (Toninho Português) a praia pode ter esse nome por causa das catacumbas no entorno da Capela de Sant’Anna e que ficavam expostas pela ação do clima ou das escavações do terreno.

Nota do editor:
Este conteúdo aceita correções e ajustes, a história nunca está concluída. Caso o leitor tenha alguma informação que possa melhorar este post, será muito apreço.



[1] Marcio Werneck, "Búzios Armação Histórica"
[2] Myriam Ellis, “A Baleia no Brasil Colonial”

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Búzios: música para crianças




A Circolo Escola de Criação dos mágicos das artes Pap Antônio e Marina Codeço está organizando um curso de Musicalização Infantil  para crianças de 7 a 11 anos com o professor Josué Lira. 
Serão 2 turmas com 10 alunos cada. As vagas são limitadas.
Assim que preencher o número mínimo de interessados, será marcada um Aulão Inicial com as crianças e seus pais para conhecerem o professor, o método e as vantagens da Iniciação Musical na Infância.
Contato: (22) 8116-8311
Ou deixe uma mensagem no perfil da Circolo no Facebook: http://www.facebook.com/circolodecriacao