domingo, 7 de março de 2021
Incrível e inquietante: a partir de fotos app cria filmes inéditos de antigos buzianos
quinta-feira, 4 de março de 2021
Deu no O Dia: Búzios terá Museu da identidade Buziana "Amém"
Tenho fé no trabalho de Romano como secretário de cultura e acredito que o assunto da matéria reflete o seu desejo verdadeiro. Registro aqui no Blog a notícia com esperança que o fato se concretize.
Leia a matéria abaixo:
Búzios - Representantes da Secretaria de Turismo e de Cultura e Patrimônio Histórico do município de Armação dos Búzios estiveram na última semana visitando a Fundação Cultura Barra Mansa, para conhecer o Centro de Documentação e Memória Fazenda da Posse.
Planejando o futuro Museu da Identidade Buziana, a equipe buscou aprofundar mais conhecimento sobre conservação de objetos, higienização de documentos históricos, processos de escovar, limpar e fotografar as páginas dos documentos e formas de condicionamentos de itens arqueológicos. Com isso, o Presidente da Fundação Cultura de Barra Mansa, Marcelo Bravo fez questão de levar todos os representantes para conhecer a reserva técnica, o acervo de obras raras e explicou como a Fazenda da Posse utiliza e capta recursos por meio das atividades de patrimônio e para a manutenção das unidades.
O secretário Romano Lorenzi, disse que a equipe buziana trabalha incansavelmente para dar início ao projeto do futuro Museu da Identidade Buziana: 'Búzios é uma cidade jovem e recém emancipada, temos 26 anos, mas com histórias desde a chegada dos portugueses na região de Cabo Frio com presença de povos indígenas, Caiçaras, pescadores, povos sambaquianos e comunidades quilombolas. O nosso prédio mais antigo é a igreja de Sant’Anna, de 1740, e no entorno do prédio existe todo um trabalho arqueológico para ser desenvolvido. Por isso a gente veio aqui para estreitar essa relação e entender como é esse processo de cuidar dessa documentação. Barra Mansa faz um trabalho muito sério e de referência. Por isso a gente quer pegar o que tem de melhor na nossa região. Estamos hoje em Barra Mansa para poder entender a importância desse resgate da memória do povo', disse Romano.
Atualmente, o Centro de Documentação e Memória Fazenda da Posse conta com 15 mil itens, a maioria datado do século XIX, entre documentos e itens arqueológicos. O local fica no bairro Barbará, Barra Mansa-RJ.
sábado, 9 de janeiro de 2021
Tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias
Comercios fechados, desemprego, falta do auxílio emergencial do governo federal, aumento de casos de covid, falta de leitos: essa é uma realidade provável para os próximos meses em cidades pequenas como Buzios; podem ser os meses das vacas magras, se preferirem a metáfora bíblica de José do Egito.
domingo, 4 de outubro de 2020
Búzios é o exemplo vivo, ou morto, da ocupação que Ricardo Salles planeja
Resorts sobre os manguezais, o lucro rápido de uma meia dúzia em troca do prejuízo eterno de milhões, ou seja, terra arrasada
Eu devia ter uns dez anos quando aceitei passar um feriadão acampada com tios e primos em Búzios. Búzios, na época, ainda era Búzios.
Metemos duas barracas da Mesbla na Kombi do meu pai, junto com a tralha, que incluía uma privada de madeira construída pelo meu avô marceneiro, para que mantivéssemos as comodidades do lar. O acampamento cigano foi erguido no canto de uma João Fernandes ainda selvagem.
Exaustos da viagem, arrochamos a boca de fogão num botijão, a fim de cozinhar o macarrão com Pomarola da janta. Não deu um minuto, o barulho agudo do vazamento resultou num cheiro insuportável de gás. “Vai explodir!”, gritou meu tio, enquanto tentava evitar a tragédia.
Passado o susto, engolimos a gororoba, lavando pratos e dentes na espuma da arrebentação. Não lembro o que fizemos com os sacos plásticos das necessidades, ajustados ao trono do meu avô. Temo confessar que os jogamos no mato, como se o mato fosse dar cabo deles.
Eu me lembro, sim, de cair amontoada no quartinho de tela num calor de rachar e de ser acordada por um primo que enchera a cara e acabou vomitando nos pés dos ocupantes da sala do château de náilon.
Assim que o dia raiou, carente de paz e privacidade, inflei o bote de plástico e passei a sexta, o sábado e o domingo a boiar na marola, sem blusa, chapéu ou filtro. Ignorávamos o risco de melanoma naqueles idos de 1975. No caminho de volta, notei o contraste entre o roxo da pele e o branco da marca do biquíni. A queimadura levaria um mês para sarar.
Trauma de infância, nunca mais acampei e nem senti falta de acampar.
Eu levaria duas décadas para retornar à Armação dos Búzios. Dessa vez, nada de farofa. O pai de um namorado possuía uma casa linda, no centro da Ferradura, cujo jardim terminava num muro sobre a areia. A maré alta engolia a beira-mar e me pareceu estranho que uma praia pública pudesse ser loteada de maneira tão privée.
Pela manhã, despertei com o roncar das lanchas.
Não só a areia da Ferradura fora privatizada, como o espelho d’água liberado para todo o tipo de esportes aquáticos. Banana boats, motos aquáticas e embarcações variadas zanzavam como moscas no plácido oceano, ameaçando banhistas, afugentando peixes e arruinando o que Deus criara.
No apagar das luzes do segundo milênio, os dois penhascos que fecham a entrada da exuberante enseada ainda restavam intactos, mas os grandes resorts já negociavam as encostas recobertas de vegetação nativa, animais rasteiros e ninhos de pássaros.
Eu levaria outros 20 anos para retornar ao Éden de Brigitte Bardot. Foi em setembro, agora, no meu aniversário de 55 anos.
A engarrafada via de mão dupla que dá acesso à península sempre foi horrenda, mas piorou com a idade. O comércio de casas feias quintuplicou o número de restaurantes, supermercados, postos de gasolina e agências de turismo. Um não acabar de néons, reclames e outdoors vendendo o que não mais existe.
Minto.
A praia dos Ossos ainda guarda a memória do antigo encanto. A igrejinha do século 18, protetora dos baleeiros, continua lá, mas o resto foi entregue à especulação imobiliária.
Condomínios inteiros avançam sobre as demais praias. Boates bregas, pistas de minikart e pombais batizados de hotéis, onde antes respiravam dunas. Quase nenhum vestígio da paisagem agreste.
A praia da Tartaruga foi tomada por botecões estilo favela. Enormes barracas de compensado e concreto, com mesas que se alastram em direção ao mar. Um festival de latas de cerveja, garrafas, copos de plástico e guimbas meio fumadas.
Búzios é o exemplo vivo, ou morto, da ocupação predatória que Ricardo Salles, o antiministro do Meio Ambiente, planeja para o que sobrou do Brasil.
Resorts com piscinas de cloro sobre os manguezais que alimentam a vida marinha e a nossa. O lucro rápido de uma meia dúzia, em troca do prejuízo eterno de milhões.
Extrativismo. Queima de riquezas irrecuperáveis. Terra arrasada.
Minha família jamais deveria ter acampado em João Fernandes; o pai do meu namorado não poderia ter fincado sua casa na areia da Ferradura e nem as malocas-bares destruído a beleza da Tartaruga.
Você pode desculpar os adultos da década de 1970 por não besuntarem as crianças com filtro solar. E perdoar a falta de consciência ecológica e planejamento urbanístico dos anos 1980 e até 1990.
Em 2020, é crime! É crime, Ricardo Salles. Minha solidariedade à juíza Maria Amélia Almeida Senos de Carvalho, da 23ª Vara Federal do Rio de Janeiro, que tentou barrar essa boiada. Pena que durou pouco.
sábado, 4 de julho de 2020
"A MOENDA" - Equipamentos da Cultura Buziana II
O caldo servia tanto para beber puro quanto para misturá-lo ao café.
sábado, 27 de junho de 2020
"SUBACA" - Equipamentos da Cultura Buziana
segunda-feira, 22 de junho de 2020
A vida e o legado de Luiz Gama, herói da liberdade
Por Irapuã Santana
Publicado no caderno Estado da Arte - Jornal Estadão (21 de junho de 2020)
“Eu disse, uma vez, que a escravidão nacional nunca havia produzido um Terêncio, um Epitecto, ou sequer, um Spártaco. Há, agora, uma exceção a fazer: a escravidão, entre nós, produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epitecto e de Spártaco”. [1]
Sílvio Romero
Uma criança negra livre é vendida para quitar uma dívida de jogo de seu pai, consegue a alforria, estuda Direito e consegue libertar mais de quinhentas pessoas escravizadas.
É roteiro de filme hollywoodiano, mas sua origem é real e bem brasileira. Ela começa em Salvador, Bahia, em 21 de junho de 1830, quando nasceu Luiz Gonzaga Pinto da Gama.
Jornalista, poeta, advogado e um ativista incansável na luta contra o regime escravocrata, Luiz Gama deveria estar entre as figuras mais conhecidas da história brasileira, como um dos maiores, senão o maior, símbolo dessa época. No entanto, apesar de um grande potencial de transmissão de sua mensagem à frente, diante da quantidade de documentos históricos à nossa disposição, bem como por se tratar de um passado relativamente recente, pouca gente conhece a história desse verdadeiro herói.
Assim, estas poucas linhas são uma singela tentativa de fazer justiça à memória desse grande personagem brasileiro.
Filho de Luiza Mahin, uma negra africana livre, com um fidalgo de origem portuguesa de uma das principais famílias baianas, cujo nome se desconhece, Luiz Gama, com apenas dez anos de idade foi vendido como escravo por seu pai.
Ao desembarcar no porto de Santos, subiu a serra – descalço e faminto – até Campinas. Para se ter uma ideia, o Google Maps, hoje em dia, coloca a distância entre as duas cidades como equivalente a 175 km, com, no mínimo, 37h de caminhada. Imagine isso em 1840, em condições precárias, no meio da mata fechada, para uma criança de apenas dez anos de idade.
Com dezessete anos, Gama conheceu um jovem rapaz que lhe ensinou a ler e escrever, bem como matemática e alguns conhecimentos humanistas. Aos dezoito, começou a reunir provas de que sua situação de escravizado era completamente ilegal, tendo ciência de que seu pai e sua mãe gozavam de ampla liberdade.
Pediu que seu então senhor lhe desse a alforria. Sem sucesso.
Luiz Gama, então, fugiu para São Paulo, na posse das provas de que nascera livre, quando passou a servir às forças armadas até 1854. Em 1856, foi nomeado escrevente da Secretaria de Polícia, onde se aproximou de José Bonifácio e iniciou seus estudos de Direito por sua própria conta.
A literatura serviu para Luiz Gama como passaporte para os círculos sociais mais altos, tendo como sua obra mais proeminente de poesia “As Primeiras Trovas Burlescas”, de 1859.
A poesia Quem Sou Eu?, popularmente chamada de Bodarrada, talvez seja uma das mais conhecidas das Primeiras trovas burlescas. Nela, Gama traça um autorretrato:
“Faço versos, não vate, digo muito disparate. Mas só rendo obediência à virtude, à inteligência: eis aqui o Getulino…”.
O nome “Bodarrada” vem da palavra “bode”, que, na gíria da época significa mulato, negro. Assim, Luiz Gama indagava:
“Se negro sou, ou sou bode, pouco importa. O que isto pode?”
E terminava sua poesia dizendo:
“Haja paz, haja alegria, folgue e brinque a bodaria. Cesse, pois, a matinada, porque tudo é Bodarrada!”. [2]
Em 1868, Gama foi expulso da polícia por ser considerado baderneiro, por conta de sua atuação junto ao Partido Liberal à época. Foi nesse ínterim que se consolidou a figura do ativista liberal abolicionista. Enquanto se preparava juridicamente sozinho, por ter sido rejeitado pelos colegas e professores de faculdade, escrevia para inúmeros jornais: O Diabo Coxo, O Cabrião, O Polichinelo, O Coaraci e, mais tarde, O Radical Paulistano, entre outros. Sob pseudônimos, tecia grandes críticas à sociedade escravagista e à política do regime monárquico.
Dez anos depois da primeira edição das Primeiras trovas burlescas, o jornalista liberal tinha a audácia de jogar os refletores, de condenar a incompetência, a ignorância e a corrupção dos juízes da província, insolência que lhe valeu tanto perseguições políticas quanto notoriedade. Quer pelo humor, quer pela seriedade, as palavras de Luiz Gama deviam ter um peso insuportável para os doutores, alvos prediletos do julgamento por parte do insolente ex-escravo, ex-analfabeto e autodidata sem diploma, o que lhe conferia uma certa superioridade e, por que não dizer, uma indisfarçada autoestima.”[3]
Embora mereçam nota, o servidor público, o poeta e o jornalista formam apenas uma introdução do legado de Luiz Gama, enquanto advogado – apesar de apenas ter sido reconhecido como tal pela OAB somente cento e trinta e três anos após sua morte. Até então, atuava como rábula.
Luiz Gama utilizava toda sua formação moral e jurídica como instrumento de luta nos tribunais, na imprensa, nos parlatórios e onde mais sua voz pudesse ecoar pela vinda da sonhada liberdade a todos os escravizados.
A Lei Feijó, de 1831, foi muito invocada por nosso herói. Ela é conhecida por ser uma das grandes responsáveis pelo surgimento da expressão “pra inglês ver”. Ela declarava “livres todos os escravos vindos de fôra do Imperio” e impunha “penas aos importadores dos mesmos escravos”. No entanto, como não havia intenção de materialização desse objetivo, o tráfico negreiro continuou sem qualquer restrição.
Mas Luiz Gama, munido de provas de que a pessoa havia aportado no país após essa data, vinda da África, conseguia nos tribunais sua alforria, em vitórias magníficas. Uma das histórias mais contundentes e elucidativas de como atuava em seu cotidiano é a que segue:
………..
Entrou-lhe um dia, pelo escritório adentro, um negro que desejava libertar-se e que ia entregar-lhe o montante do pecúlio necessário para que Gama tratasse de alforriá-lo. Enquanto o preto expunha o seu caso, aparece o senhor, que por sinal era amigo do advogado. Estava visivelmente inquieto, triste, abatido. E entrando em explicações, pergunta ao negro por que pretende abandoná-lo, a ele que sempre lhe dera trato e carinho iguais aos de seus filhos.
– Por que queres deixar-me, abandonando o cativeiro de um homem bom como tenho sido, arriscando-te a seres infeliz quando estiveres sozinho pela vida?
O escravo não respondia. Não tinha o que reclamar, pois o amo fora sempre, mais que humano, solícito e bondoso. O senhor não se conformava com a atitude do escravo:
– Por que me abandonas? Que é que te falta lá em casa? Dize… fala…
– Falta-lhe – interveio Luiz Gama, dando uma palmada no ombro do preto – falta-lhe o direito de ser infeliz onde, quando e como queira!
E libertou o negro.[4]
…………………
Nosso personagem histórico variava seus argumentos das mais diversas formas possíveis para defender seus clientes. Uma fala que entrou para a eternidade e levou o real significado da liberdade para Luiz Gama ocorreu quando defendia um negro escravizado que havia matado seu senhor: Todo escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata em legítima defesa.[5]
Foi com essas atuações que o ex-escravo conseguiu libertar mais de quinhentas pessoas escravizadas durante sua vida.
……………..
Em 24 de agosto de 1882, morre Luiz Gama. Conta-se que 10% da população de São Paulo esteve presente no seu velório e enterro. Infelizmente, apesar de seus grandes feitos, muito pouca informação sobre Luiz Gama é disseminada no Brasil.
Inscrito no livro dos heróis nacionais em 16 de janeiro de 2018, e apesar de ter sido nomeado o patrono da abolição da escravatura no Brasil na mesma data, não vemos uma minissérie, um filme, dificilmente uma peça em seu nome com sua vida.
Os livros de história nos colégios tratam o dia de hoje como uma data em que pessoas brancas concederam a liberdade a pessoas negras e apagam o fato de que personagens heroicos lutaram com suas vidas para que a sonhada liberdade chegasse a todos.
Em nossas mãos está a obra de Luiz Gama, uma pessoa que fez da sua vida um ensinamento, que dedicou a sua vida à causa abolicionista.
Nós temos o potencial de ser o seu legado, levando sua palavra adiante, não o deixando cair no esquecimento, em sua vivência e em sua mais forte essência. Temos o potencial de fazer isso ressignificando o 13 de maio, que deve ser entendido como uma data de lembranças das narrativas corretas, dos contos de quem passou por todas as etapas da vida se dedicando à liberdade e à igualdade de fato.
Um novo 13 de maio deve ser fundado no país, tendo como base a obra e o legado de Luiz Gonzaga Pinto da Gama.








